'O que é amor para você', Letícia Kappaun

A história de uma pessoa que lutava para disseminar amor e intensidade. Uma amizade que nunca morrerá

Guilherme Detoni, Jornal Imprensa do Povo
Foto: Divulgação
Letícia Kappaun

Desde sempre a amizade foi uma das coisas mais importantes na vida humana, uma vez que se pode partilhar alegrias, frustrações, sucessos e fracassos, expectativas e desilusões. Estudos mostram que a amizade é capaz de promover uma pessoa mais responsável e rica em solidariedade. É o amigo que te ensina, te incentiva, te apoia e te fala umas boas verdades na cara, coisa que outra pessoa não conseguiria fazer.

No dia 30 de julho, comemorou-se o Dia Internacional da Amizade, e nada melhor do que compartilhar o amor e companheirismo da Capital Catarinense da Amizade.

No ano de 2009, foi aprovado em redação final o Projeto de Lei n° 206/09, que reconhece o município de Pinhalzinho como a Capital da Amizade. A autoria do projeto deve-se ao político Dirceu Dresh (PT), que teve por preposição homenagear a cidade e seus habitantes que vieram do Rio Grande do Sul.

Dirceu trouxe informações de Agusto Giovani, Ernani Edson, Fernanda Bem, Carmem Salvini e Neuro Schimith, que afirmaram que quando as pessoas chegavam ao território pinhalense com as mudanças, os habitantes ajudavam os novos moradores a descarregarem suas malas, mesmo sem conhecê-los, motivo este que levou muitas pessoas a se instalarem na cidade.

Pinhalzinho é uma cidade de muita hospitalidade, com pessoas que dividem momentos, mostram caminhos e lutam para evoluírem juntas. É um sentimento que preenche todos os cantos da cidade. É uma amizade pura e verdadeira, no qual essa magia nunca subestima o valor desses vínculos que aquecem corações.

No Brasil, comemora-se o Dia da Amizade em 20 de julho, porém a sugestão da Assembleia Geral das Nações Unidas, é que todos comemorem a data no dia 30 de julho, marcando o Dia Internacional da Amizade.

A data foi impulsionada pelo médico paraguaio Ramón Artêmio Bracho, que fundou a Cruzada Mundial da Amizade, que buscava promover a difusão da cultura de paz. Segundo informações, todo dia 30 de julho Ramón reunia paraguaios para atividades culturais e sociais, com o objetivo de fortalecer os valores da amizade.

Nessa semana, nossa equipe de jornalismo conversou com algumas pessoas da cidade de Pinhalzinho, que contaram um pouco de sua linda amizade com Letícia Kappaun, que buscava espalhar amor pelo mundo. Infelizmente, a jovem Letícia veio a falecer no ano de 2021, vítima de um grave acidente de trânsito registrado na Capital da Amizade. Seu amor e seu legado nunca morreram, e hoje permanecem vivos como uma brasa que queima. Apesar de Letícia não estar mais aqui, ela ainda permanece nos corações de muitas pessoas, que se sentem motivadas em espalhar o amor, a união e o perdão. "O que é amor para você", dizia Letícia Kappaun.

"Falar do que foi nossa amizade ainda é algo que me emociona muito, pois a Leeh teve uma das passagens mais lindas que eu já vi na minha vida", disse Raquel Ladik, uma das melhores amigas de Letícia.

Raquel disse que sente muita falta de sua companheira, porém sabe que Leeh está em um lugar incrível.

"Ela era um ser de alma livre e um coração gigantesco. Creio que a passagem dela nesse plano foi para ensinar sobre o amor, cuidado, desapego e humildade. Ela era pura, calma e de uma luz incrível e acredito que ela sabia que sua passagem por aqui seria muito curta e por isso ela fazia o possível para viver intensamente".

Segundo Raquel, sua amizade era verdadeira e diferente de todas as outras. "Ela tinha como hábito abordar pessoas aleatórias e perguntar: "O que é amor pra você?". Essa foi uma maneira que ela encontrou para sempre ressignificar o sentido e o significado do amor ao próximo, pois todos que tiveram a honra de conhecê-la vão sempre lembrar dela dessa maneira. A dor da saudade sempre vai andar do meu lado, porém o que me conforta é saber que a Leeh está em um lugar incrível, comendo os cogumelos que ela adorava, descalça na grama e ouvindo Rubel e com toda certeza ela se sente abraçada por cada um que sente sua falta. Gratidão pela sua amizade! Você sempre será a minha lua".

Letícia sempre foi amante da liberdade, e lutou para que as pessoas sentissem um pouco desse clima de imensidão. Sua irmã Taís Kappaun disse que Leeh era uma garota com muitos ideais, cheia de sonhos e histórias.

"Uma garota que vivia intensamente sua vida sem limites e sem barreiras, uma pessoa com espírito livre, que adorava cachoeira e o mar e que amava tudo que significava liberdade. Ela era destemida, corajosa e sonhadora e mesmo não tendo nada, ajudava com o pouco que tinha", expressou.

Taís disse que sua irmã tinha o sorriso mais lindo do mundo e que mesmo em seus dias ruins, não baixava a cabeça e sim lutava pelo que acreditava.

"Leeh, você foi incrível em tudo, me ensinou muito e eu sei que deixou uma mensagem linda pra todos a sua volta. Mesmo com todas as nossas diferenças você me amava como eu era. Éramos totalmente o oposto uma da outra, mas nossas diferenças se completavam pelo amor. Você era incrível e eu sempre vou amar cada pedacinho seu e irei te honrar. Obrigada por você ter me dado a honra de ser sua irmã mais velha, sei que falhei em muitas coisas, mas você sabe que tudo que fazia era por amar você e querer te cuidar. As lembranças são muitas e a saudade já é enorme e dolorosa demais, a casa ficou vazia sem você, sem teu cheiro de café, a cama toda bagunçada, que saudades de você minha irmã. É doloroso demais sem você aqui, mas sei que Deus tem um propósito lindo para você aí, e você deixou um lindo legado aqui na terra. Você foi maravilhosa em tudo. Você sempre vai ser um pedaço lindo de mim. Amo você! Que onde você esteja, esteja feliz e bem! Brilha minha estrela", disse Taís.

A presidente da União Nacional LGBT de Chapecó, Carol Listone disse que Leeh acreditava no potencial das pessoas e encorajava muitas vidas.

"Lembro pouco do dia que nos conhecemos, sabe aquelas pessoas que parecem que estão na tua vida desde o início? Pois é, ela foi uma dessas pessoas. Mas eu lembro, claramente do dia em que estávamos a caminho do Rio de Janeiro, ela em pé no busão, falando dos sonhos que tinha para sua vida, para cidade onde morava e para a juventude. Lembro que ela dizia que entrou pra UJS porque acreditou no seu potencial e que acreditar em potenciais era o que gostava. Ela confiou no meu, me fez ter coragem em momentos que não seria capaz de ter, calma quando necessário e sorriso largo nas horas mais impróprias. Por uns dias eu cheguei a ficar com raiva dela, pois sempre dizia "deixa esse celular pra lá, tiramos foto depois, curte" e agora eu quase nem tenho fotos para lembrar das nossas andanças, tá tudo na lembrança e tenho medo de que seja fugaz", dizia Carol.

Listone disse que Letícia trouxe leveza, cor e coragem para sua vida. "Afinal quem em sã consciência espera de mochila na BR pedindo carona? Só ela. Quem nunca entendeu meu sentimento de "vai dar certo" é por que não conheceu a Leeh. A resposta sempre foi essa, 'vai dar certo, não sabemos como ir, não sabemos como voltar, mas sabemos que vamos e voltamos'", contou.

Carol disse que Letícia era muito corajosa e ajudou muitas pessoas a alcançarem a liberdade.

"No dia em que ela partiu, assim que eu soube, entrei no carro e mais rápido do que nunca, cheguei em Pinhalzinho, mas tudo já tinha acabado, todos já tinham ido embora e o que me restou foi sentar na frente de onde agora ela descansa e ficar rindo com o Henrique das maluquices dela, a lua estava linda e ali eu entendi. Ela era um ser de muita luz para que guardássemos tristeza. Ela sempre foi carinhosa demais, para deixar na nossa lembrança uma imagem de dor. Talvez por isso eu não tenha chegado a tempo, assim as minhas lembranças que as vezes parecem fugaz, são no fim a melhor coisa que eu poderia guardar da Leeh".

A presidente da UNA disse que a amizade de Letícia foi importante para muitas pessoas, pois ela emancipou, encorajou, libertou e orientou muita gente.

"Nesse Dia do Amigo, me pediram para dizer o quão importante tua amizade foi para mim, e eu não sei dizer sabia? É tanto. Por isso decidi te escrever, no fim tu vai entender, afinal de papo lunático a gente era fera. Obrigada pela tua existência, obrigada pelos roles mais loucos e felizes que já tive, obrigada pelo carinho, acolhimento e encorajamento de sempre", disse Carol.

O jovem Eduardo Vieira Demarco disse que Leeh passou por esse plano deixando mensagens e verdades como se fosse um anjo ou um mestre.

"Ser um amigo, é ser um irmão, ser um irmão, é ser uma extensão, ser uma extensão é saber que no peito de seu irmão, pulsa o mesmo amor, que nutre e cria, e o mesmo que se estende pela eternidade", disse.

Segundo sua amiga Maria Beatriz, o que definia Letícia Kappaun era a liberdade.

"Ela era livre demais e essa liberdade foi o que me encantou desde o primeiro momento em que vi ela na minha frente. Ela reluzia, era iluminada e acredito que foi isso que fez com que em meio a tantas pessoas que estavam naquele evento quando nos conhecemos, eu a enxergasse, me apaixonasse e desde então entreguei tudo o que tinha de melhor dentro de mim, para que assim ela cultivasse esse amor e a gente iniciasse uma caminhada juntas. Ela perguntava para todos "o que é amor para você?'', ela queria enxergar diversas perspectivas de amar, nunca foi uma dúvida, ela já tinha resposta para a sua pergunta. Quando retornei essa mesma pergunta para ela, ela respondeu da forma mais singela e doce "você". Desde então ela me escrevia cartas, cuidava de mim, se importava comigo e nossa relação era extremamente recíproca. Ela tinha projetos, viagens, sonhos, sempre se reinventava e com certeza foi a pessoa mais doce, simples, pura e amorosa que meu coração pode conhecer. Ela me ensinou o que é o amor e eu não acredito que exista legado mais importante do que ensinar as pessoas a amar. Ela gostava do mar, de cachoeira, da lua, campos de trigos, ver as estrelas, gatos, amava musica xamânica, sorvete de chocolate, conversas esotéricas sobre o universo e seus segredos. Tenho certeza que agora ela está desbravando o cosmos atrás de todas as perguntas que ela fazia e sabia que apenas depois da passagem seriam respondidas. Eu te amo amiga para todo o sempre", completou.

Letícia Kappaun sempre lutou pelos seus sonhos e acreditava nas mais variadas maneiras de amar. Segundo seus amigos, ela espalhou muito amor, carinho e intensidade na Capital Catarinense da Amizade e todos que tiveram a oportunidade de conhecê-la, nunca mais irão esquecer de suas mensagens e ensinamentos.

Isso que é uma verdadeira amizade, saber amar, respeitar, apoiar e perdoar. A amizade é uma joia rara, onde você encontra a mais pura lealdade e sinceridade. Em uma amizade, deve-se aprender a amar e perdoar. Agora reflita, "o que é amor para você"?


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